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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Gestão de grupo financeiro agrava crise na Gama Filho e UniverCidade



A mídia teve acesso a contratos que formalizaram as transferências de mantença da UniverCidade e da Gama Filho ao Galileo. Ambas são entidades filantrópicas sem fins lucrativos, e por isso, não podem ser vendidas. Em vez disso, seus antigos proprietários receberam remunerações para não se tornarem concorrentes do Galileo. Paulo Gama, um dos ex-donos da Gama Filho, recebeu R$ 26.029.717,56 como indenização para ficar fora do mercado de educação superior por cinco anos. E mais R$ 1,5 milhão mensais, pelos mesmos cinco anos, para ceder a marca da faculdade. Já Luiz Alfredo da Gama recebeu R$ 18.571.777,15. Somados, esses valores chegam a cerca R$ 134 milhões. Para viabilizar a operação, o grupo ainda criou o Galileo Gestora de Recebíveis, sociedade com o propósito específico de emitir 100 debêntures no valor de R$ 1 milhão cada. A contrapartida? As mensalidades do curso de Medicina, o mais caro da UGF.

Já a Associação Educacional São Paulo Apóstolo (Assespa), que controlava a UniverCidade, pertencia ao ex-banqueiro Ronald Guimarães Levinsohn. Na transferência de controle para o Galileo Educacional, ficou estabelecida uma indenização de R$ 100 milhões, na forma de três terrenos, para que o Instituto Cultural de Ipanema e a Associação para a Modernização da Educação — entidades filantrópicas geridas pelo empresário e controladoras da Assespa — ficassem fora do setor de ensino superior durante 30 anos. Levinsohn, porém, garante:
— Esses terrenos nunca fizeram parte da negociação. Eu os comprei com meu dinheiro, mas estavam com a Assespa. A indenização foi apenas uma forma de tirar o terreno da transferência — afirma o empresário.
Veja aqui o histórico da crise do grupo Galileo Educacional.


Já de acordo com Daltro de Campos Borges Filho, advogado de Paulo Gama, a transação envolvendo seu cliente também não foi uma venda. Ele diz que, na visão de Paulo, a Gama Filho precisava estar ligada a um grupo financeiro para sobreviver. A transferência, então, teria sido vista como forma de fortalecer a instituição. Mas as esperadas melhorias não aconteceram e, ironicamente, agora o ex-proprietário está processando o Galileo por falta de pagamentos na indenização firmada.


A crise na UniverCidade, na Gama Filho e em outras faculdades privadas, como a Candido Mendes, foram investigadas na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) cujo relatório final será analisado pelos deputados nas próximas semanas. De acordo com o documento, o Galileo está afundado em débitos da ordem de R$ 900 milhões. O relatório pede o indiciamento de seis pessoas, entre reitores e ex-controladores de universidades. Um deles é Márcio André Mendes Costa, ex-dirigente do Galileo, responsável pela aquisição Gama Filho e da UniverCidade. Em outubro de 2012, ele passou o grupo para o empresário Adenor Gonçalves dos Santos, que já teve dois CPFs cancelados e coleciona mais de 40 ações na Justiça como réu. Adenor nunca foi visto por professores e alunos.


Os problemas financeiros na UGF são anteriores à transferência de mantença. Mas, desde que o Galileo entrou em cena, a crise se agravou rapidamente. Desde 2011, as mensalidades perderam descontos e subiram, em alguns casos, 40%, dizem estudantes. Cerca de mil professores foram demitidos, segundo o sindicato.


De acordo com Márcio André Mendes Costa, havia docentes ociosos e todas as medidas foram tomadas para resolver o problema de caixa. Ele nega a demissão de mil professores.


— Metade dos professores de Medicina ganhava sem dar aula. Foram 230 demitidos. A gente tem que entender que sem sanear não resolve. Nada justifica a Gama Filho ter uma folha de pagamento do tamanho que ela tinha. Eu recebi a universidade com quase R$ 500 milhões de dívidas dos antigos sócios e procurei revitalizá-la — argumenta o advogado.

Fonte: O Globo Educação, em 14/8/2013.

CTB APOIA GREVE DOS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO DO RIO DE JANEIRO



Carta aos Vereadores do Rio de Janeiro


EXMO. SR. VEREADOR JORGE FELIPE - PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

SENHORES(AS) VEREADORES(AS) DO RIO DE JANEIRO

A CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil vem manifestar seu integral apoio à luta dos Profissionais de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro que retomaram o seu movimento grevista na última sexta-feira, dia 20 de setembro, depois de uma greve histórica de 33 dias. A proposta de Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) do prefeito Eduardo Paes, enviada na terça-feira à Câmara Municipal, dia 17 de setembro, frustrou todas as expectativas dos profissionais de educação, já que o plano não contempla a categoria.
A sociedade carioca espera que a Câmara Municipal atenda as reivindicações dos profissionais em greve!

CENTRAL DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL

domingo, 8 de setembro de 2013

ENTREVISTA: Nilton Soares, presidente do Sindserj



REVISTA 

54|s o c i o l o g i a
sociólogos & sociologia

Nilton Soares de Souza Neto tem intenso trabalho como docente na área da Sociologia Jurídica e desenvolve ações como militante sindical
por Lejeune Mirhan

A  S o c i o l o g iA no Direito

SociologosSociologia.indd 54 8/8/2013 17:14:15

Sociólogo e mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Nilton Soares de Souza Neto, atualmente, leciona na Faculdade Paraíso, em São Gonçalo, Rio de Janeiro, no curso de Direito e de Turismo. No âmbito do Direito, desde o seu mestrado, vem desenvolvendo pesquisas sobre Sociologia Jurídica. Também participa, ativamente, da vida sindical e, desde 2008, compõe a diretoria do Sindicato dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro (SINDSERJ), na qualidade de presidente, tendo sido um dos seus fundadores. Vem sendo convidado para entrevistas em inúmeros meios de comunicação e para participar de audiências públicas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e no Congresso Nacional.

COMO AS CIÊNCIAS SOCIAIS ENTRARAM EM SUA VIDA E O QUE O LEVOU A SE TORNAR SOCIÓLOGO?
Ingressei na UFF, no curso de Ciências Sociais, em 1984. Naquela época eu trabalhava  como  gráfico  na  Thomas  De  La Rue Indústrias Gráficas, no departamento de criação, confeccionando documentos de segurança, como fotógrafo e montador de  fotolito.  Nesta  profissão    atuava  no sindicato da categoria e participei de uma comissão de greve. O movimento foi vitorioso, mas fui demitido três meses depois.
Percebi o quanto eram precárias as condições da categoria. Quando fui dispensado, já cursava Ciências Sociais e, a partir daí,  me  joguei  profundamente  no  mundo universitário. Ajudei a fundar, em 1985, o Diretório Acadêmico de Ciências Sociais, separando do curso de História. Além da participação estudantil, fui monitor em quase todos os anos do curso e participei
de, pelo menos, três projetos de Iniciação Científica. Naquela época, a minha opção era trabalhar como pesquisador e não como  professor  do  Ensino  Médio.  Afinal, a experiência que tive na licenciatura da UFF e o contato com os professores, em geral, desestimulavam qualquer um a seguir a carreira. Os professores do curso tinham uma postura autoritária e muitos eram dirigentes nas secretarias de educação e davam aulas em instituições particulares, principalmente as religiosas.
FALE-NOS DE SUA EXPERIÊNCIA COMO PROFESSOR DE SOCIOLOGIA.
A entrada no magistério dependia de muitos contatos e naquela época ainda não tinha concurso específico para sociólogo. Tínhamos que fazer estágio acumulado para ingressar em outras disciplinas, de forma a ampliar o leque de opções de ingresso no concurso do Ensino Médio.
Sem contar que os alunos do curso de Ciências Sociais eram vistos com preconceito, em virtude dos questionamentos que fazíamos nas salas de aula. Muitos colegas do curso lutaram para fazer as licenciaturas, não por escolha, mas, sim, por falta de opção dentro do curso, que era de bacharelado e licenciatura simultaneamente. Digo isto, porque os colegas que iam, geralmente, para as licenciaturas eram de posição social e econômica mais baixa em comparação aos que iam para os mestrados. No meio do curso já sabíamos quem ingressaria nos mestrados, as bolsas eram poucas e, consequentemente, poucos recebiam. Muitos professores do nosso curso eram do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e do Museu Nacional e levavam os seus discípulos do curso de Ciências Sociais da UFF para estes mestrados. O perfil preferido para estes alunos era não participar dos movimentos sociais e não ser militante estudantil, práticas que eram vistas com grande preconceito. Mesmo o departamento de Sociologia, que era mais sensível aos movimentos sociais, tinha esta postura pelos seus chefes. Nos outros departamentos, não era permitido ao estudante, sequer, participar das reuniões departamentais na qualidade de representante estudantil. O aluno, quando era aceito nestas reuniões, era mais devido à sua condição de bolsista de algum professor do departamento do que na qualidade de representante estudantil.
JÁ COMO PROFISSIONAL FORMADO, QUAIS FORAM SUAS EXPERIÊNCIAS NO MERCADO DE TRABALHO?
Tive a oportunidade de trabalhar como pesquisador no Conselho Regional de Serviço Social e no Dieese, num consórcio de instituições dos cursos de Serviço Social na UFF, UFRJ, PUC e UERJ, onde trabalhei  por  dois  anos  no  projeto  e  exerci,  ao final,  a  função  de  coordenador  de  pesquisa de campo. Depois, vaguei por diversos projetos de pesquisa, em outras experiências na área editorial e como assessor em campanhas eleitorais, até ingressar na primeira turma do mestrado de Sociologia e Direito da UFF. Foi a partir da pós-graduação que ingressei no magistério superior e posso dizer, também, que foi por meio de outra área do conhecimento, no Direito e não nas Ciências Sociais, que tive a oportunidade de trabalhar no magistério.
UMA DAS ESPECIALIZAÇÕES DA SOCIOLOGIA É A ÁREA JURÍDICA OU DO DIREITO. FALE UM POUCO SOBRE A TRAJETÓRIA COMO PROFESSOR DE SOCIOLOGIA JURÍDICA EM CURSOS DE DIREITO.
A grande experiência que obtive como professor foi na Universidade Estácio de Sá, quando o professor Cavalieri Filho era aexperiência que tive na licenciatura da UFF e o contato com os professores, em geral, desestimulavam qualquer um a seguir a carreira de docente. os professores do curso tinham uma postura autoritária aflitos, para dar encaminhamento ao projeto. Assim, em vista da resistência, convidei outros colegas a se reunirem no velho
Instituto  de  Filosofia  e  Ciências  Sociais (IFCS) da UFRJ, no Largo de São Francisco. A primeira reunião ocorreu com a presença de três pessoas, eu, o professor Organista e a Gabriele, mestranda à época. Ocorreram muitas outras depois, mas esta  foi  marcante,  pois  refletiu  o  quanto a categoria dava importância à questão sindical. A luta foi difícil, pelo menos um ano de muitas reuniões e, também, muita reação para que o sindicato não fosse fundado. O mais difícil foi superar a reação dos colegas da APSERJ, o que repercutiu dentro dos cursos. Alguns professores, que eram orientadores em mestrado, chegaram a colocar alguns colegas que estavam na chapa da diretoria sob o dilema de continuar com a bolsa ou participar do sindicato. A contradição foi a APSERJ ter se colocado contra, formalmente, justificando  que  aquele  não  era  o  momento mais oportuno e cabia mais discussão.
A entidade foi criada quando a legislação da ditadura exigia, para fundação de um sindicato, que fosse criada primeiro uma associação profissional, para, mais tarde, pelo menos dois anos depois, se converter em sindicato. O caso é que a APSERJ Foi a partir da pós-graduação que ingressei no magistério e posso dizer, também, que foi por meio de outra área do conhecimento, no direito e não nas Ciências Sociais, que tive a oportunidade de trabalhar no magistério dirigente da instituição. Havia um diálogo direto com os professores que lecionavam a disciplina de Sociologia Jurídica. Mas tive um problema por ser bacharel em
Ciências Sociais e não em Direito. Devido à avaliação que a instituição iria se submeter por parte do MEC, me tiraram todas as turmas de Sociologia Jurídica, que eram a maioria das que eu tinha. As aulas me foram restituídas, mas com a ressalva que a atitude seria uma exceção e não um precedente. Eles avaliavam que eu teria que ter o bacharelado em Direito. Era uma loucura trabalhar na Estácio em 2001, no auge da instituição, pois acabava atuando em várias unidades, desde Macaé até Bangu, passando por Niterói, onde residia. Muitos professores eram magistrados, promotores e advogados sem muita experiência em docência e poucos com pós-graduação, mestrados e doutorados. O curioso é que a despeito da ideia do que se tem sobre o Direito, percebi que esse mundo era menos elitista do que  o  das  Ciências  Sociais.  Os  conflitos no Direito eram mais claros e não tão individualistas como na nossa área. Mas, além da experiência na Estácio de Sá, que foi muito rica, lecionei, também, na pós--graduação em Direito Privado e Público da Universidade Cândido Mendes e, mais tarde, na UFF, no departamento de Ciência Política, como professor substituto.
COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA COMO LÍDER SINDICALISTA DA CATEGORIA, DESDE A ASSOCIAÇÃO PROFISSIONAL DOS SOCIÓLOGOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (APSERJ) ATÉ A FUNDAÇÃO DO SINDICATO DOS SOCIÓLOGOS?
Por volta de 2006, aceitei o convite do professor Santo Conterato, que tinha sido meu orientador em duas monitorias, para compor  a  diretoria  da  Associação  Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro – APSERJ. Em 2008, fundamos o Sindicato dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro – SINDSERJ, no mesmo ano em que foi sancionado, pelo vice-presidente da República, a inclusão obrigatória da Sociologia  e  da  Filosofia  na  grade  do  Ensino Médio do país. Entretanto, cabe dizer que a fundação do SINDSERJ foi difícil, primeiro porque a proposta foi apresentada na diretoria da APSERJ, quando eu era diretor, e não obtive receptividade dos colegas diretores na época. Por isso, me retirei da entidade, depois de vários conSouza, sobre polêmica acerca da criação de um Conselho Federal de Sociólogos: “antes de tudo, há que se ter uma discussão mais ampliada sobre sua necessidade” estava fundada havia mais de dez anos e não conseguiu encaminhar uma discussão para a criação do sindicato. No entanto, a despeito da resistência da APSERJ, o movimento cresceu e se tornou irreversível não fundar o sindicato. Na composição da diretoria, conseguimos trazer vários professores dos cursos de Ciências Sociais para a chapa e pedimos que a APSERJ indicasse nomes para compor a chapa. Eu queria, especialmente, que o professor Santo Conterato compusesse a diretoria. Mas, depois de muitas reuniões, a  diretoria  da  APSERJ,  finalmente,  recusou todos os nossos convites. Contudo, o fundamental é que o movimento no Rio de Janeiro conseguiu sensibilizar os colegas nas universidades sobre a necessidade de um sindicato para a categoria. Até nos meios sindicais tivemos resistências, pois entendiam que uma entidade de profissão dividiria o movimento, que deveria se pautar por sindicatos por ramo de atividade e não por profissão.
EM LINHAS GERAIS, VOCÊ PODE NOS CONTAR QUAL É A POSIÇÃO DO SINDSERJ EM RELAÇÃO À CRIAÇÃO DO CONSELHO FEDERAL DE SOCIÓLOGOS?
A questão do Conselho Federal de Sociólogos é polêmica. Antes de tudo, há que se ter uma discussão mais ampliada sobre sua necessidade. Mas, apesar da controversa, não há como deixar de reconhecer que esta tem sido uma bandeira histórica do movimento sindical de nossa categoria, desde os primeiros congressos da Federação de Sociólogos. No entanto, se no passado ocorreu uma discussão rica a respeito do tema, hoje ela precisa ser retomada pelo movimento, para não ocorrerem equívocos lamentáveis, como o que aconteceu na Comissão de Trabalho da Câmara Federal, em dezembro de 2012, na qual fui convidado. Houve o pedido de uma audiência pública na comissão, pelo presidente da federação, que encaminhou a questão para o foro da comissão, sem uma discussão ampliada no movimento. Foi proposto, então, um projeto estranho, mudando a proposta original do movimento, que era Conselho Federal de Sociólogos para o de Ciências Sociais. Foi mais do que lamentável, porque expôs a desorganização que o nosso movimento está passando, e foi antidemocrática por não ter sido uma reivindicação da base dos sindicatos estaduais. Um Conselho Federal dos Sociólogos, se não for bem debatido, pode ser apropriado por grupos com interesses que não representem a categoria. Corre o risco de ser tomado por notáveis e por articulações partidárias, como ocorre em outros conselhos. Mas, como disse, é necessária uma discussão ampliada e rica a respeito do tema. A nossa atual gestão pretende realizar debates com os colegas no Rio de Janeiro e em outros Estados da federação, para elaborarmos uma proposta amadurecida, democraticamente, na categoria dos sociólogos.
PARA CONCLUIR, COMO VOCÊ ESPERA QUE OS SOCIÓLOGOS SUPEREM A SITUAÇÃO DE DESORGANIZAÇÃO EM PLANO NACIONAL DA CATEGORIA, COM RELAÇÃO À FEDERAÇÃO NACIONAL DOS SOCIÓLOGOS?
Desde a fundação do SINDSERJ, em 2008, sindicatos de outros Estados foram criados ou estão em vias de serem fundados. Temos no Amapá, no Amazonas e no Acre, que destaco por estarem mais distantes. Há, também, um sindicato novo, que tem sido sempre atuante, como o do Piauí. Sindicatos históricos mais antigos, como o de Minas Gerais, regularizaram sua situação e reconquistaram a Carta Sindical no ano passado, assim como ocorreu com o nosso, em outubro de 2012. Mas, infelizmente, o sindicato de São Paulo, que é o mais forte, está com problemas com as atas da eleição e se encontra  fechado.  Isto  reflete  o  grau  de  desorganização do movimento, que deixou São Paulo abandonado. O movimento sindical, a despeito do cenário da federação, tem se fortalecido. Ocorreu um movimento forte pelo país, depois da obrigatoriedade da Sociologia no Ensino Médio, na direção da fundação de entidades sindicais e da refundação de outras entidades, que estavam fechadas. Este movimento ainda não teve um fórum adequado para se expressar, que seria, no nosso ponto de vista, um Congresso da Federação. Contudo, considerando os problemas que o movimento, como um todo, está passando, penso que teríamos que refundar a federação, de acordo com as normas da lei, para termos uma entidade forte e representativa dos sindicatos e, ainda, para rechaçar movimentos estranhos e não representativos da categoria, que não têm registro regularizado e nem podem ser chamadas de entidade civil. Ou seja, tem expressado mais um pequeno movimento do que representação das entidades sindicais do país, apesar do esforço dos colegas na federação. As entidades estaduais têm conquistado muitas vitórias e teríamos que nos reunirmos e refundarmos a federação, como exige a lei, e reconquistarmos a representatividade em âmbito nacional, que foi perdida nos anos 1990.
ENTREVISTA FEITA POR
* Lejeune Mirhan é sociólogo, Professor, Escritor e arabista. colunista da Revista sociologia da Editora Escala e colaborador do portal da Fundação Maurício grabois e do Portal Vermelho. Foi professor de sociologia e ciência Política da UNiMEP entre 1986 e 2006. Presidiu o Sinsesp de 2007 a 2010. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br

ÁLVARO CUNHAL


Cunhal: Doutrina que explica o mundo e indica como transformá-lo 

Publicado em agosto de 1985, o livro do O Partido com paredes de vidro, do líder comunista português Álvaro Cunhal, (1913 – 2005), guarda toda a atualidade. De seu primeiro capítulo Época gloriosa na história da humanidade, extraímos o texto a seguir, dedicado à teoria do Partido Comunista, o marxismo-leninismo, no qual o dirigente português combate tanto o dogmatismo como o desprezo e a rejeição, à guisa de renovação, dos princípios dessa teoria.

Uma doutrina que explica o mundo e indica como transformá-lo

O caminho da libertação dos trabalhadores e dos povos foi descoberto e é definido e iluminado pelo marxismo-leninismo. O marxismo-leninismo é um sistema de teorias que explicam o mundo e indicam como transformá-lo.


Os princípios do marxismo-leninismo constituem um instrumento indispensável para a análise científica da realidade, dos novos fenômenos e da evolução social e para a definição de soluções corretas para os problemas concretos que a situação objetiva e a luta colocam às forças revolucionárias.

A assimilação crítica do patrimônio teórico existente e da experiência revolucionária universal são armas poderosas para o exame da realidade e para a resposta criativa e correta de novas situações e aos novos fenômenos.

O marxismo-leninismo surgiu na história como um avanço revolucionário no conhecimento da verdade sobre o mundo real – sobre a realidade histórica.

O marxismo-leninismo é uma explicação da vida e do mundo social, um instrumento de investigação e um estímulo à criatividade.

O marxismo-leninismo, na imensa riqueza do seu método dialético, das suas teorias e princípios, é uma poderosa arma para a análise e a investigação que permite caracterizar as situações e os novos fenômenos e encontrar para umas e outros as respostas adequadas.

É nessa análise, nessa investigação e nessas respostas postas à prova pela prática que se revela o caráter científico do marxismo-leninismo e que o PCP se afirma como um partido marxista-leninista.

Rejeitam-se por isso simultaneamente duas atitudes em relação à teoria.

A primeira é a
 cristalização de princípios e conceitos que impossibilita a interpretação da realidade atual porque ignora ou despreza os novos, constantes e enriquecedores conhecimentos e experiências.

Tal atitude tem razões diversas e expressões diversas. Pode resultar da impreparação que leva facilmente a ver como verdades eternas os princípios com os quais pela primeira vez se contata. Pode resultar do espírito dogmático que, mesmo quando possuidor de todos os conhecimentos necessários para o progresso das ideias, se recusa a aplicá-los de forma criativa.

Um dos aspectos mais correntes desse espírito dogmático é a sacralização dos textos dos mestres do comunismo, a substituição da análise das situações e dos fenômenos pela transcrição sistemática e avassaladora dos textos clássicos como respostas que só a análise atual pode permitir. Com tais critérios dir-se-ia que alguns colocam como tarefa não aprender com os clássicos para explicar e transformar o mundo mas citar o mundo para provar a onisciência dos clássicos.

O estudo dos textos não dispensa o estudo da vida. A teoria surge da prática e vale para a prática. É na prática que se pode formar uma força material.

Um marxista-leninista jamais pode opor os textos às realidades. Jamais pode desmentir uma realidade que lhe surge no caminho sob pretexto de que os mestres não a haviam previsto. Não pode por exemplo opor às revoluções libertadoras vitoriosas dos povos coloniais e ao ruir do colonialismo a tese de Lênin (inteiramente justificada na sua época) de que os povos oprimidos da África não se poderiam libertar antes da revolução libertadora do proletariado dos países opressores. Se se revela uma contradição entre o texto clássico e a nova realidade, a tarefa do marxista-leninista é examinar, aprender, explicar essa realidade, utilizando para tal as poderosas armas teóricas que lhe dão os mestres do comunismo.

Não se é marxista-leninista só porque se dão vivas ao marxismo-leninismo e se afirma a fidelidade aos princípios, se estes são compreendidos como petrificados e alheios à realidade em que se luta. Tão importante como um partido afirmar-se marxista-leninista é sê-lo de fato.

A segunda atitude em relação à teoria que o PCP rejeita é a
 tentativa de responder às novas situações através de uma elaboração teórica especulativa e apriorística, desprezando ou rejeitando os princípios do marxismo-leninismo e as experiências de validade universal do movimento revolucionário. 

Nesta atitude é muito vulgar a preocupação da “novidade”, cuidando-se que é certa apenas porque aparece como algo de novo e renovador.

Inscreve-se nessa atitude a absurda tentativa de separar o marxismo e o leninismo, afirmando entretanto que a fidelidade ao marxismo é compatível com o abandono do leninismo.

Afinal, o que dizem rejeitar de Lênin? Mesmo em países de capitalismo desenvolvido, dizem rejeitar o papel revolucionário e de vanguarda da classe operária substituindo-o efetivamente pelo papel de vanguarda dos intelectuais e da pequena burguesia urbana. Dizem rejeitar a concepção de aliança da classe operária com o campesinato substituindo-a por uma aliança indefinida de forças sociais heterogêneas. Dizem rejeitar a teoria do Estado e a teoria do Partido. Dizem rejeitar a crítica leninista à democracia burguesa e ao parlamentarismo burguês como formas políticas de opressão econômica e social e descobrem-lhes valores que sobrepõem aos objetivos da emancipação social. Dizem rejeitar métodos revolucionários de acesso da classe operária ao poder.

Julgando separar Lênin de Marx para o renegar, acabam por renegar também Marx, pois todas essas teses deformadas, caricaturadas e rejeitadas, embora desenvolvidas por Lênin, fazem parte das ideias básicas do marxismo.

Sucede assim que, lançados na especulação, os novos teóricos, sem darem por isso, apresentam como conclusões novas e criadoras o que não é mais do que a reposição de velhos, ultrapassados e desacreditados conceitos.
 
Nada de admirar que, abandonando Lênin, acabem por cair, no plano político, em concepções que em numerosos aspectos se identificam ou confundem com as do reformismo e da social-democracia.

O marxismo-leninismo é, por outro lado, intrinsecamente antidogmático; é, por outro lado, contrário à elucubração teórica que não tem como fundamento sólido a prática e a experiência.

O marxismo-leninismo é uma doutrina em movimento, constantemente enriquecida pelo avanço da ciência, pelos novos conhecimentos, pelos resultados da análise dos novos fenômenos, pela riquíssima e variada experiência do processo revolucionário.

Tendo passado 102 anos desde a morte de Marx e 61 anos desde a morte de Lênin, o marxismo-leninismo foi enriquecido, no que respeita às ciências sociais, pela contribuição dada pelos mais diversos partidos na crescente diversificação e complexidade do processo revolucionário.

O enriquecimento e desenvolvimento do marxismo-leninismo é obra coletiva, resultante das experiências da luta e do trabalho teórico criativo do movimento comunista internacional e de cada um dos seus destacamentos – entre os quais, naturalmente, o Partido Comunista Português.
 

Fonte:
 O Partido com Paredes de Vidro, Ed Avante!, 5ª edição, Lisboa, 1985